A atualização da NR-1 não surgiu do nada. Entre 2023 e 2024, os afastamentos por transtornos mentais cresceram 67% no Brasil — e somente em 2024, mais de 440 mil trabalhadores foram afastados por ansiedade, depressão e síndrome de burnout. Além disso, os riscos psicossociais já motivaram mais de 5 mil ações na Justiça do Trabalho desde 2014, com valores discutidos que totalizam aproximadamente R$ 2,2 bilhões. Diante desse cenário, o Ministério do Trabalho e Emprego atualizou o capítulo 1.5 da NR-1 para incluir expressamente os fatores psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.
Portanto, a pergunta que todo gestor precisa responder antes de maio não é mais “se” a empresa vai se adequar — é “como” vai comprovar que os riscos psicossociais estão sendo efetivamente gerenciados. A diferença entre estar preparado e não estar, nesse caso, pode custar multas, aumento do FAP e um passivo trabalhista crescente.
O Que São Riscos Psicossociais na Nova NR-1
Para entender o que a NR-1 atualizada exige, é necessário compreender o conceito de risco psicossocial — um termo técnico que, na prática, descreve situações cotidianas que qualquer gestor reconhece, mas que raramente eram tratadas como risco ocupacional formal.
Segundo a norma atualizada, os fatores de risco psicossocial relacionados ao trabalho são situações que envolvem a maneira como as atividades são planejadas, organizadas e executadas. Quando não são adequadamente gerenciadas, essas situações podem prejudicar a saúde mental, física e social dos trabalhadores. Consequentemente, a empresa passa a ser responsável não apenas por acidentes físicos, mas por qualquer dano à saúde mental que tenha origem no ambiente de trabalho.
Os Principais Riscos Psicossociais que Devem Constar no PGR
Do GRO ao PGR: Como Estruturar a Nova Gestão de Riscos
A NR-1 estabelece uma hierarquia clara entre dois instrumentos que precisam coexistir e se complementar: o GRO e o PGR. Compreender a diferença entre eles é o primeiro passo para estruturar a conformidade com a norma atualizada.
GRO — Gerenciamento de Riscos Ocupacionais
O GRO é o processo estratégico — a mentalidade e a sistemática de gestão voltadas à proteção da saúde e segurança dos trabalhadores. Portanto, não é um documento: é uma abordagem contínua que envolve identificar perigos, avaliar riscos, implementar controles e monitorar resultados. Além disso, com a atualização da NR-1, o GRO passa a obrigatoriamente incluir os riscos psicossociais no mesmo nível dos riscos físicos, químicos e biológicos.
PGR — Programa de Gerenciamento de Riscos
O PGR é o instrumento operacional — o documento que materializa o GRO. Nele devem constar o inventário de riscos (incluindo os psicossociais), a avaliação do nível de exposição de cada grupo de trabalhadores, o plano de ação com medidas preventivas e corretivas e o cronograma de monitoramento contínuo. Consequentemente, é o PGR que o fiscal do trabalho vai solicitar na fiscalização.
Fiscalização 2026: O Que o Inspetor do Trabalho Vai Cobrar
A partir de 26 de maio, os auditores fiscais do trabalho terão base normativa clara para autuar empresas que não demonstrarem conformidade com a NR-1 atualizada. Além disso, o Ministério Público do Trabalho — que não está vinculado ao mesmo cronograma — já considera os fatores psicossociais em suas investigações e ações civis públicas, independentemente do prazo de maio.
Os Itens Críticos da Fiscalização
Impacto na Indústria e no Comércio: Além da Segurança Física
Setores tradicionais — como a indústria manufatureira, o agronegócio, a construção civil e o varejo — têm longa experiência com gestão de riscos físicos: EPIs, sinalização, CIPA e PPRA fazem parte da rotina há décadas. No entanto, a gestão de riscos psicossociais exige uma mudança de mentalidade que vai muito além da área de segurança do trabalho — ela envolve a liderança, a cultura organizacional e os processos de gestão de pessoas.
O Desafio para a Liderança de Nível Médio
Supervisores e coordenadores — especialmente em ambientes fabris e de comércio com alta pressão por metas e produtividade — são simultaneamente os principais geradores e os principais vítimas de riscos psicossociais. Portanto, treiná-los para identificar sinais de esgotamento, gerir conflitos e comunicar de forma não violenta é o investimento mais estratégico que a empresa pode fazer antes de maio.
Setores com Maior Risco de Autuação
Segundo especialistas em direito trabalhista, os setores com maior incidência de adoecimento mental — e, consequentemente, maior risco de investigação pelo MPT — incluem teleatendimento e call centers, setor bancário e financeiro, saúde e enfermagem, tecnologia da informação e varejo de alta rotatividade. Além disso, empresas nesses setores já estão sujeitas a investigações do MPT independentemente do prazo de maio de 2026.
A NR-1 Como Oportunidade: Menos Absenteísmo, Mais Produtividade
Embora a perspectiva de fiscalização e multas seja o principal motivador de adequação para muitas empresas, a NR-1 atualizada representa também uma oportunidade concreta de melhoria dos resultados operacionais. Além disso, organizações que já adotaram as diretrizes voltadas aos riscos psicossociais relatam benefícios mensuráveis.
Os Benefícios Que as Empresas Pioneiras Já Registram
- Redução do absenteísmo: trabalhadores em ambientes psicologicamente saudáveis faltam menos — e quando faltam, retornam mais rapidamente. Portanto, o custo dos afastamentos diminui de forma direta e mensurável.
- Menor rotatividade: ambientes que gerenciam riscos psicossociais retêm mais talentos — reduzindo o custo de recrutamento, seleção e treinamento de novos colaboradores.
- Redução do passivo trabalhista: empresas com PGR atualizado e documentado têm muito mais dificuldade de ser condenadas em ações por burnout e assédio — o que protege diretamente o resultado financeiro.
- Acesso ao Certificado de Empresa Promotora da Saúde Mental: instituído pela Lei nº 14.831/2024, o certificado é um diferencial competitivo crescente — especialmente para empresas que participam de licitações públicas ou que têm clientes corporativos com critérios ESG.
Conclusão: Saúde Mental Não é Pauta de RH — é Conformidade Legal
A NR-1 atualizada encerra definitivamente a era em que saúde mental era tratada como tema periférico ou voluntário nas empresas brasileiras. A partir de 26 de maio de 2026, ela é obrigação legal — com as mesmas consequências administrativas e trabalhistas de qualquer outra norma de segurança ocupacional. Portanto, a decisão de adequar ou não a empresa deixou de ser uma questão de cultura organizacional e passou a ser uma questão de gestão de risco.
Além disso, o custo da adequação — treinamentos, atualização do PGR e implementação de canais de denúncia — é significativamente menor do que o custo de uma autuação, de um aumento no FAP ou de uma ação trabalhista por burnout. Diante disso, empresas que usarem os próximos dias para estruturar o diagnóstico, atualizar o PGR e documentar os planos de ação estarão em posição muito mais favorável do que as que esperarem a fiscalização bater na porta.
Consequentemente, gestores que enxergarem a NR-1 não como uma ameaça, mas como uma alavanca de melhoria do ambiente de trabalho, terão empresas mais produtivas, com menos processos e com equipes mais engajadas — que é, em última análise, o que separa empresas resilientes das empresas que perdem talentos e competitividade ano após ano.
“A NR-1 atualizada não cria uma obrigação nova — ela formaliza uma responsabilidade que sempre existiu. O empregador sempre foi responsável pela saúde integral do trabalhador. A diferença é que, a partir de maio, haverá multa para quem fizer de conta que não sabia.”

Fundador da Analitic Assessoria & Consultoria.
Matemático com especialização em Tecnologia e
base em Contabilidade. Criou o Analitic Insights
para levar inteligência empresarial a quem
toma decisões.
